Faixa a Faixa: The Sorry Shop “Mnemonic Syncretism” (2013)

Publicado: 28 de maio de 2013 em Dream-Pop, Shoegaze
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The Sorry Shop

Por Al Schenkel

Lançado no dia 1º de maio deste ano, Mnemonic Syncretism é o segundo disco cheio do sexteto rio grandense de shoegaze, The Sorry Shop. A banda, formada por Régis Garcia, Marcos Alaniz , Mônica Reguffe, Rafael Rechia, Kelvin Tomaz e Eduardo Custódio em maio de 2011, vem consolidando seu nome entre alguns dos maiores representantes da atual cena alternativa/underground nacional, empunhando com louvor uma sonoridade iniciada há cerca de três décadas atrás e reverenciada através de grande artistas como My Bloody Valentine, Slowdive e Dinosaur Jr.

Em Mnemonic Syncretism a proposta inicial da The Sorry Shop, assim como nos trabalhos anteriores — Thank You Come Again EP, de 2011 e Bloody, Fuzzy, Cozy, de 2012 — segue mantida a todo vapor, tendo como objetivo fusionar wall of sounds poderosos e densos sobre estruturas musicais delicadas e vocais doces e introspectivos, fórmula aliás atingida com maestria, resultante da ótima fase criativa na qual os músicos gaúchos se encontram. Também é notável a evolução dentro do processo de produção e gravação do álbum, mérito de Régis Garcia, verdadeiro mágico da cultura DIY e um dos núcleos criativos da banda.

Logo abaixo você poderá conferir então um faixa a faixa exclusivo escrito por Régis Garcia sobre as dez músicas que compõe Mnemonic Syncretism, podendo assim assimilar as suas concepções sobre a criação de cada canção e entender um pouco sobre o universo particular do músico e suas inspirações.

01. Star Rising

Quando decidimos a ordem do disco, foi impossível não pensar na Star Rising como faixa de abertura. Logo que acabamos o “Bloody, Fuzzy, Cozy”, já tínhamos algumas ideias na cabeça (ou até gravadas), como foi o caso da Star Rising. Nesse sentido, pela proximidade com o álbum anterior, dá pra perceber que ela tem um semblante bem semelhante ao das músicas mais antigas. Quando eu escuto a Star Rising abrindo o disco, sempre tenho a sensação de que há alguma espécie de elo conectivo com o trabalho prévio e isso me agrada. Também gosto do andamento dela, uma coisa meio monótona, mas ainda assim com um movimento ascendente.

 

02. Cold Song

A Cold Song, na verdade, partiu de uma ideia que acabou virando outra música, a “Silkworm”, que ficou de fora do disco. Quando o Marcos trouxe a letra pra gente, percebi que ela ficaria bem mais interessante da maneira que ficou. Gosto da estética invernal dela, um clima meio azulado. A letra tem menção ao clima de julho, frio aqui no sul do Brasil. Achamos engraçado que alguém na América do Norte, por exemplo, escute e pense que estamos loucos falando, em língua inglesa, do frio no verão. Mas tudo bem, nosso contexto é esse e é sobre ele que sabemos falar. O frio aqui é meio assim mesmo: ele vem em ondas, sopra na praia e faz um movimento de areia levantando, como se passassem cavalos correndo e levantando poeira. A paisagem da janela do Marcos é essa, dá diretamente pra praia do Cassino, uma das maiores em extensão do mundo. Além de estarmos literalmente na borda do mundo, como a letra também sugere, dá pra entender essa sugestão como uma metáfora de introspecção, do olhar marginal, de quem realmente está na borda, longe do centro, tentando entender e absorver o resto do mundo. Em relação ao instrumental, o que mais gosto nela é baixo preguiçoso, denso e bagunçado, bem simples, que por vezes carrega a música um pouco pra trás.

03. Rooftops of Any Town

É uma faixa bem crua e direta. Quando estava pensando no contexto do disco, antes de criar a Rooftops, eu sentia muita falta de algo um pouquinho mais visceral. Ela é tão simples que não passa de uma bateria marcada, baixo distorcido e um par de riffs simples de guitarra. Mesmo assim, quando ela ficou pronta, sentimos falta de uns “tapa buracos” na música e, então, o Rafa Rechia providenciou uns feedbacks bacanas e uns ruídos que completaram ela. É, sem dúvida, uma das mais divertidas ao vivo, daquelas que funcionam se esticadas por bastante tempo, abusando do barulho. A letra também tem relação com nosso contexto, ou de qualquer cidade por aí. É a imagem geral daquela velha paisagem urbana que a gente conhece por inteiro, por onde a gente pode se mover de olhos vendados, onde a gente cresceu e, em um determinado momento, acaba por se tornar uma simbiose e a gente já não sabe mais qual a diferença entre aquilo que nos circunda e a nossa própria
subjetividade.

04. Sulfur

A Sulfur foi a primeira a ficar pronta e ia ser lançada um mês antes do disco ficar pronto, como single. Na verdade, ela passou uns seis ou sete meses pronta, esperando a letra. Em um determinado momento, acabamos estourando o prazo para ela ser liberada como single. Estava bem difícil organizar ela com letra e vocais (que só começaram a ser gravados bem no fim do processo todo do disco). Para piorar a situação dela, enquanto trabalhava gravação dos vocais, acabei tendo problemas no HD externo onde estavam os projetos das músicas da The Sorry Shop e a Sulfur desapareceu. O que temos dela é um bounce da mix final (quase provisória) feita logo no início do processo de gravação e mixagem do disco. Foi, por um lado, interessante que isso tenha acontecido, já que ela foi, por isso, um norte para todo conjunto do álbum. A letra da Sulfur tem relação com a necessidade de seguir em frente, de esquecer algo que passou e deixar de lado o passado. Contudo, quando isso acontece, pode ser que tenhamos que enfrentar demônios e infernos particulares e aprender a lidar com eles.

05. Protect

É, possivelmente, a minha faixa favorita. Gosto demais, além de tudo, da letra dela, que foi uma parceria entre o Marcos e eu. Também gosto muito da maneira como ela se desenvolve, sem grandes nuances, nem riffs muito marcantes ou distintos. O linha principal de guitarra é uma variação entre tônica e oitava, de uma mesma nota, afundada em distorção, delay e reverb. É singelo. O arranjo dela, pra mim, tem algo de hipnótico, acho que por ter uma qualidade meio elíptica. Ao vivo ela tem ficado bem ficado bem interessante, com um groove diferente que, por vezes, remete a uns lances mais psicodélicos lá de 60 ou início de 70. Um pouco ela também é uma ode ao MBV.

06. Mnemonic Syncretism

Essa quase vinheta, toda instrumental mesmo, foi gravada por completo no dia anterior ao lançamento do disco. Eu já tinha ideia de algo que fosse uma introdução para a Know Me Right, faixa seguinte do disco, mas ainda não a tinha testado. Enquanto terminávamos o disco, começamos a ensaiar para os shows do lançamento. No último ensaio, tentando buscar uma alternativa para a introdução da Know Me Right, o Rafa acabou aparecendo com a ideia harmônica que deu vida para a Mnemonic Syncretism. Fiquei com aquilo na cabeça, amadurecendo a ideia e, quando não tinha mais tempo pra parar e gravar nada, gravei a faixa homônima ao título do disco. Acho que a posição dela no álbum é bem favorável ao contexto geral da obra. É como um respiro, uma pequena meditação para limpar os ouvidos e depois voltar a escutar a próxima parte com mais atenção.

07. Know Me Right

A Know Me Right é uma música bem fácil, reta, simples. O que mais meagrada nela é a letra, que tem relação com a solidão e a impessoalidade no meio de tanta coisa, tanta informação e tanta gente. Todo mundo é observador, o voyeurismo não é mais apenas um fetiche, é uma solução pra conseguir lidar com o fluxo contínuo de dados, imagens, sons, textos, a que somos submetidos diariamente. Estar no quarto e com tanto contato com o mundo soa como escapismo, uma variação perversa do que foi fugir para o campo ou para as imensidões vastas em outros momentos da história recente da civilização. Ao mesmo tempo em que observamos, estamos sendo observados, devorados e julgados. É um duo esquizofrênico ao qual nos acostumamos e, mais estranhamente, nos sentimos confortáveis e nos acalentamos. O engraçado é que, de longe ela parece otimista, quem sabe pela harmonia e levada, mas definitivamente é uma música muito fatalista.

08. Away to Mars

Demorou pra ficar pronta e é lotada de camadas e mais camadas de guitarra, além de muitas texturas. Acho que foi a faixa mais fácil de fazer pela liberdade que acabamos assumindo nela. A ideia principal nela veio de uma linha aleatória de guitarra, que gravei solta, só com o metrônomo. Eram frases pequenas que eu ia repetindo e alternando. A parti daí fui adicionando todas outras camadas até ficar satisfeito, cada uma da mesma maneira que a primeira, sem necessariamente um foco na composição e sem visar um resultado final específico. Pra fechar a faixa, acabamos gravando uma microfonia da guitarra do Kelvin Tomaz, num fim de ensaio, sem que ele estivesse escutando a faixa e ainda sem ter sido devidamente apresentado ao resultado parcial dela. Pra mim é o elemento mais bacana da coisa toda. O resultado final é bem interessante e toma o mesmo contorno da letra e da proposta interna da faixa. A letra, por sinal, é pro Major Tom.

09. The Lesser Blessed

Relutei bastante ao ponderar sobre lançar a The Lesser Blessed. Gosto demais dessa faixa, mas às vezes não via ela no contexto do disco. O que mais me motivou a lança-la foi a possibilidade de homenagear o Richard Van Camp, escritor de um belo livro, cujo título deu o nome a essa faixa. A letra é baseada na trajetória da personagem Larry, protagonista do livro do Van Camp. Não vou fazer spoiler aqui, é um livro baratinho, vale a pena ler. O mais legal foi que assim que o disco saiu, mostrei ela diretamente pro autor, que foi bastante gentil e disse que acho bem legal. Foi muito bom saber que ele achou interessante, principalmente por ter lido que durante a escrita do livro (como consta nos agradecimento na última página) ele escutou bastante Slowdive, MBV e por aí vai. É um cara com referências. Também gosto muito da suavidade do vocal da Mônica nessa música.

10. Awaken Dream

Desde que ficou pronta, a Awaken Dream, pra mim, é uma das faixas mais visuais da banda. Não gosto muito do termo, mas acho que ela tem uma característica bastante onírica. O Marcos fez a letra dela pensando no “Labirinto” e no Bowie. Por ser uma faixa bastante visual, que oferece algumas imagens nubladas, borradas, como a própria letra sugere, me parece que é uma das boas candidatas pra ganhar um registro visual que acompanhe a faixa. A pegada dela ao vivo é ótima, dá pra experimentar bastante tocando.

 

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1.Star Rising 03:58
2.Cold Song 04:17
3.Rooftops of Any Town 02:21
4.Sulfur 04:06
5.Protect 04:41
6.Mnemonic Syncretism 02:52
7.Know Me Right 04:24
8.Away to Mars 04:07
9.The Lesser Blessed 04:14
10.Awaken Dream 03:58

Confira o disco e baixe gratuitamente através do bandcamp oficial da The Sorry Shop, aqui: http://thesorryshop.bandcamp.com/

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